Eu tinha uma culpa enorme antes do Pedro nascer: como ia amar outro filho do mesmo jeito que amava o Davi? Na gestação, eu lia que o coração se multiplica, mas era difícil acreditar. O Davi, com dois anos, percebia a barriga crescendo e dizia “bebê, bebê”, batendo a mãozinha na minha barriga. Eu chorava escondida, com medo de que ele se sentisse menos amado.
O Pedro nasceu no início da primavera. Quando trouxe o recém-nascido para casa, o Davi entrou no quarto na ponta dos pés, subiu na cama e olhou para o irmão com uma seriedade de adulto. Depois de um longo silêncio, disse: “Irmãozinho”. E completou: “Mamãe, ele é meu”. Ali entendi que o coração de mãe não se divide: ele se multiplica, porque imita o próprio Deus, que é Amor infinito.
A rotina ficou mais difícil, é verdade. Noites em claro, duas crianças precisando de colo ao mesmo tempo. Mas aprendi a fazer da hora do banho um momento de família, e do domingo de missa o nosso ritual. O pai segura um, eu seguro o outro, e a gente caminha junto para a igreja como quem caminha para a nossa casa maior.
O que eu quero deixar para quem lê é isto: ter mais de um filho não é dividir amor, é aprender a amar em dobro. E a família tradicional, fundada no matrimônio e aberta à vida, é exatamente esse lugar onde o amor é generoso, onde se aprende a ceder, a esperar e a agradecer. Hoje, quando vejo os dois dormindo juntos no mesmo quarto, eu só tenho a agradecer.
