Pular para o conteúdo
    Primeira infância

    Lateralidade infantil: canhoto, destro ou ainda indefinido?

    Entenda quando a lateralidade se define, por que não se deve forçar a mão e o que observar no dia a dia

    Andressa Danello6 min de leitura
    Criança pequena desenhando com um lápis de cor sozinha em uma mesa

    Criança pequena desenhando com um lápis de cor sozinha em uma mesa

    É comum reparar, ainda nos primeiros meses, que o bebê parece preferir uma das mãos para pegar um brinquedo — e, junto com essa observação, vem a pergunta: será que ele vai ser canhoto? A resposta costuma vir bem mais devagar do que os pais esperam, e entender esse processo evita intervenções desnecessárias.

    Este artigo explica como a lateralidade se desenvolve, até quando é normal a criança alternar as mãos, e por que insistir para que ela use a mão "certa" pode, na verdade, atrapalhar o desenvolvimento motor.

    O que é lateralidade e quando ela se define

    Lateralidade é a preferência do cérebro por um lado do corpo para tarefas que exigem mais precisão — não só qual mão a criança usa para escrever ou desenhar, mas também qual pé chuta uma bola ou qual olho ela usa para mirar. Essa preferência nasce da forma como os dois hemisférios do cérebro se especializam ao longo da infância.

    Apesar de sinais aparecerem já no primeiro ano, durante a fase de

    estimulação precoce, a lateralidade só costuma se firmar de forma consistente entre os 4 e os 6 anos. Antes disso, é absolutamente normal a criança alternar as mãos dependendo da atividade, do dia, ou até do cansaço.

    Certo

    Alternar as mãos até os 3-4 anos não é motivo de preocupação. É parte do processo natural de amadurecimento cerebral, não um atraso.

    Por que não se deve forçar a mão

    Durante décadas, era comum forçar crianças canhotas a escrever com a direita, por pura convenção social. Hoje se sabe que essa prática pode gerar consequências reais: dificuldades de coordenação, gagueira em alguns casos, frustração e até rejeição à escrita, porque a criança é obrigada a usar o hemisfério cerebral que não é o dominante para aquela tarefa.

    Alerta

    Forçar uma criança a trocar de mão pode causar confusão motora, insegurança e, em alguns casos, dificuldades de aprendizagem que não existiriam se a lateralidade natural fosse respeitada.

    O ideal é observar e respeitar a preferência que a criança demonstrar, sem insistir para que ela mude — nem para a direita, nem para a esquerda. O papel dos pais aqui é de observação, não de correção.

    Como observar a lateralidade em formação

    • Note qual mão a criança usa com mais frequência para pegar objetos pequenos, como um lápis ou um talher;

    • Observe qual pé ela usa primeiro para chutar uma bola ou subir um degrau;

    • Veja se há uma preferência de olho, por exemplo, ao olhar por um buraco pequeno ou uma luneta de brinquedo;

    • Lembre-se que alternância entre as mãos é normal até os 4 anos — não é preciso definir nada antes disso.

    Lateralidade cruzada: o que é

    Algumas crianças desenvolvem o que se chama de lateralidade cruzada: por exemplo, são destras de mão, mas canhotas de pé ou de olho. Isso também é uma variação normal na maioria dos casos, mas em situações específicas — quando vem acompanhada de dificuldades de leitura, escrita ou coordenação motora mais amplas — pode ser um ponto a conversar com um profissional de desenvolvimento infantil, como um terapeuta ocupacional.

    Assim como acontece com outras variações no ritmo de desenvolvimento, como as observadas nas

    formas atípicas de engatinhar ou no

    atraso da fala, o mais importante não é a comparação com outras crianças, mas a observação de um padrão junto a um profissional, se houver dúvida real.

    Atividades que ajudam (sem forçar nada)

    1. Ofereça o lápis, o talher ou o brinquedo no centro do corpo da criança, deixando que ela escolha a mão livremente — não posicione o objeto já do lado "esperado".

    2. Brinque de jogos que envolvem as duas mãos, como massinha, blocos de montar e desenho livre, sem direcionar qual mão usar.

    3. Evite comentários repetidos do tipo "usa a outra mão", mesmo que bem-intencionados.

    4. Observe sem pressa: por volta dos 4-6 anos, a preferência tende a ficar mais clara e estável sozinha.

    5. Se a criança entrar na alfabetização ainda alternando bastante as mãos, converse com a escola e, se achar necessário, com um profissional de desenvolvimento.

    • Observar qual mão a criança usa com mais frequência, sem cobrar nada

    • Oferecer objetos sempre no centro do corpo, nunca já de um lado

    • Evitar comentários que direcionem qual mão "deveria" ser usada

    • Lembrar que alternância até os 4 anos é normal

    • Buscar orientação profissional só se houver dificuldades associadas, não pela lateralidade isolada

    Lateralidade e outras habilidades motoras

    A definição da lateralidade caminha junto com o amadurecimento motor mais amplo da criança, incluindo etapas anteriores como o

    tummy time e o

    engatinhar, que fortalecem os dois lados do corpo de forma equilibrada antes de qualquer preferência se firmar. Pular essas etapas ou usar demais equipamentos como o

    andador pode, inclusive, atrapalhar esse desenvolvimento motor mais amplo, que é a base sobre a qual a lateralidade se constrói.

    Brincadeiras com

    brinquedos adequados para a idade que estimulam as duas mãos igualmente, sem forçar nenhum lado, continuam sendo a melhor forma de apoiar esse processo até que a preferência apareça sozinha, no seu próprio tempo.

    Lateralidade e esportes

    A preferência lateral também aparece nos esportes, desde cedo — no chute de uma bola, no lançamento de um objeto ou na forma de segurar uma raquete. Observar isso em brincadeiras livres, sem competitividade, é mais uma forma tranquila de acompanhar o processo, sem necessidade de nenhuma intervenção ou teste formal antes da idade em que a preferência naturalmente se consolida.

    Assim como a marcha e o

    engatinhar para frente têm seu próprio ritmo de amadurecimento, a lateralidade segue essa mesma lógica: cada etapa motora prepara o terreno para a próxima, sem que seja necessário acelerar nenhuma delas.

    Escola, escrita e adaptações simples

    Quando a criança entra na fase de desenhar e depois escrever, pequenas adaptações fazem diferença para canhotos: cadernos com espiral posicionada de forma confortável, tesouras específicas e a posição do papel levemente inclinada para o lado oposto à mão dominante. Nenhuma dessas adaptações é complicada, mas fazem bastante diferença no conforto da criança.

    Esse período também costuma coincidir com marcos de linguagem e comportamento trabalhados em outros textos, como o desenvolvimento da fala descrito em

    como estimular a fala da criança pequena e a fase de birras comum na mesma idade, abordada no artigo sobre

    birras — todos processos que caminham juntos no amadurecimento da primeira infância.

    Ser canhoto, destro ou ter uma lateralidade cruzada não diz nada sobre a inteligência ou capacidade da criança — é apenas uma característica neurológica, tão natural quanto a cor dos olhos. O papel da família é observar com curiosidade, sem pressa e sem forçar um resultado.

    Continue lendo: Estimulação precoce: brincadeiras por idade, Como estimular a fala da criança pequena, Formas atípicas de engatinhar, Brinquedos por idade: o que estimula, Marcos do desenvolvimento no primeiro ano, Birras: o que acontece no cérebro da criança, Tummy time, Andador: por que é desaconselhado, Saltos de desenvolvimento do bebê e Marcha na ponta dos pés.

    Participe do Ranking da Mãe Expert

    Entre para jogar e acumular pontos: cada acerto vale ponto e a sua resposta é única — depois de enviar, não dá para mudar. Quanto mais quizzes você acertar, mais alto sobe no ranking. Complete todos os artigos e vire uma Mãe Lenda!

    Compartilhe

    Perguntas frequentes

    Comentários

    Faça login para comentar

    A

    Sobre a autora

    Andressa Danello

    Olá! Eu sou a Andressa Danello, mãe de três meninas: a Celina, de 3 anos, a Isabel, de 4 meses, e a Maria Teresa, que mora no céu. Sou casada com o Bruno Danello, orientador familiar com foco em paternidade, e é com ele que divido a vida, a casa e a criação das meninas. Escrevo no Vocação de Mãe com a honestidade que eu mesma procurava quando me tornei mãe: informação confiável, acolhimento sem julgamento e espaço para todas as emoções — inclusive as difíceis. A partida da nossa Maria Teresa mudou completamente a minha vida e, por incrível que pareça, para melhor: me aproximei ainda mais dos bons valores e das virtudes. Falar sobre isso, com leveza e verdade, é também uma forma de cuidar de quem atravessa o mesmo caminho. Neste espaço, você também vai encontrar boas reviews e indicações de produtos pensados para as mães — aquilo que de verdade ajuda a melhorar a rotina da família, a casa e o dia a dia. Só o que vale a pena, sem lista infinita de enxoval. Aqui, nenhuma mãe precisa se sentir sozinha: se o seu dia foi longo, se o bebê não dormiu, se o coração está apertado, você está no lugar certo.

    Gostou deste artigo?