Muitas mães enfrentam dor intensa para amamentar, mesmo depois de ajustar a posição e a pega várias vezes, sem entender o motivo. Em boa parte desses casos, a causa está em um detalhe pequeno, mas importante: o frênulo lingual, aquela membrana fina embaixo da língua, pode estar mais curto ou mais preso do que o esperado, limitando o movimento da língua do bebê durante a mamada.
O teste da linguinha existe justamente para identificar essa condição, chamada anquiloglossia, ainda nos primeiros dias de vida. Este artigo explica como funciona o exame, por que ele é obrigatório por lei no Brasil e o que fazer se o resultado indicar alteração.
O que é o teste da linguinha
É um exame simples e rápido, feito ainda na maternidade, que avalia a mobilidade da língua do bebê e a inserção do frênulo lingual. No Brasil, ele é obrigatório por lei (Lei 13.002/2014) e costuma ser realizado no mesmo período do teste do pezinho, antes da alta hospitalar.
O teste é indolor e leva poucos minutos. O profissional observa o formato da língua, o movimento ao chorar e a inserção do frênulo, usando um protocolo padronizado de avaliação.
Como o frênulo curto afeta a amamentação
Quando o frênulo lingual é curto ou está inserido muito próximo à ponta da língua, o bebê tem dificuldade para elevar e projetar a língua durante a mamada, o que compromete a
pega correta. Isso pode gerar dor intensa para a mãe,
bico rachado ou fissura no mamilo, mamadas muito longas e ineficientes, e até baixo ganho de peso do bebê, já que ele não consegue retirar o leite de forma eficaz.
Dor persistente durante toda a mamada, mesmo com a pega aparentemente correta;
Bebê que solta o peito com frequência e parece frustrado durante a mamada;
Mamadas muito longas, mas com o bebê ainda parecendo faminto logo depois;
Ganho de peso mais lento do que o esperado nas consultas de puericultura;
Som de estalo repetido durante a sucção.
Nem toda anquiloglossia causa dificuldade na amamentação — alguns bebês se adaptam bem mesmo com um frênulo mais curto. A avaliação de um profissional treinado é o que define se há necessidade de intervenção.
O que fazer se o resultado for alterado
O profissional que fez o teste (geralmente fonoaudiólogo, pediatra ou enfermeiro obstetra) explica o grau de limitação encontrado.
Em casos leves, o acompanhamento pode incluir apenas orientação de posicionamento e observação da evolução do ganho de peso.
Em casos que afetam significativamente a amamentação, pode ser indicada a frenotomia: um pequeno procedimento, rápido e com anestesia local (ou sem necessidade dela em recém-nascidos, dependendo do protocolo), que libera o frênulo.
Depois do procedimento, a amamentação costuma ser retomada imediatamente, muitas vezes com melhora perceptível já na primeira mamada seguinte.
O acompanhamento com fonoaudiologia pode continuar por um tempo, para garantir que o padrão de sucção se ajuste bem.
Dor muito intensa que não melhora com ajustes de pega, associada a pouco ganho de peso do bebê, merece avaliação específica do frênulo lingual, mesmo que o teste da linguinha inicial não tenha identificado alteração — a avaliação pode ser refeita.
Frênulo labial: outra variação a considerar
Além do frênulo lingual, existe também o frênulo labial superior, a membrana que liga o lábio superior à gengiva. Quando ele é muito curto ou espesso, pode limitar o selamento dos lábios ao redor do peito durante a mamada, causando um som de "clique" e entrada de ar, o que também gera dor e ineficiência na retirada do leite.
Assim como o frênulo lingual, essa avaliação é feita pelo profissional treinado, e a decisão sobre intervenção (chamada frenectomia labial) segue os mesmos princípios: só é indicada quando há impacto funcional real na amamentação, nunca apenas por uma característica anatômica isolada.
E se eu já estou com dificuldades e não sei se é isso?
Se a amamentação está dolorida e as orientações comuns de
pega correta não resolveram, vale pedir uma reavaliação específica do frênulo lingual com um fonoaudiólogo, mesmo que o teste da linguinha já tenha sido feito na maternidade — a avaliação funcional durante a mamada às vezes revela mais do que o exame estático.
Frênulo curto não impede o desenvolvimento da fala necessariamente
Uma dúvida comum é se o frênulo curto vai afetar a fala da criança no futuro. Nem sempre — muitos casos leves não trazem nenhum impacto além da amamentação. Se houver alguma dificuldade de fala mais adiante, o acompanhamento é feito separadamente, como descrito no artigo sobre
atraso de fala, que trata de sinais de alerta em uma fase posterior do desenvolvimento.
Confirmar se o teste da linguinha foi realizado ainda na maternidade
Observar sinais de dor persistente ou dificuldade de pega mesmo após ajustes
Acompanhar o ganho de peso do bebê nas consultas de puericultura
Buscar avaliação de fonoaudiologia se a dor não melhorar com orientações padrão
Não se culpar pela dor — o frênulo curto é uma causa física, não falta de técnica
Quem faz a avaliação e o procedimento
A avaliação do frênulo lingual pode ser feita por pediatras, enfermeiros obstetras treinados ou fonoaudiólogos especializados em amamentação, dependendo do protocolo da maternidade. Já a frenotomia, quando indicada, costuma ser realizada por pediatras, cirurgiões-dentistas especializados em bebês ou otorrinolaringologistas, variando conforme a região e o serviço de saúde disponível.
É importante buscar um profissional com experiência específica nesse procedimento em recém-nascidos, já que a técnica e os cuidados pós-procedimento (como exercícios de estimulação da língua, em alguns protocolos) fazem diferença no resultado final para a amamentação.
Amamentação depois da frenotomia
A recuperação costuma ser rápida, e muitas mães relatam alívio da dor já nos primeiros dias. Manter o acompanhamento de
pega correta continua importante mesmo depois do procedimento, já que o bebê está reaprendendo um novo padrão de movimento da língua. Se surgirem sinais de
mastite ou
ingurgitamento durante esse período de readaptação, vale buscar orientação para não interromper a amamentação sem necessidade.
O teste da linguinha é uma das ferramentas mais simples e eficazes para prevenir dificuldades evitáveis na amamentação. Se você sente dor persistente, mesmo com a pega aparentemente correta, vale investigar essa possibilidade — muitas vezes a solução é mais simples do que parece.
Confiar na equipe de saúde que acompanha o bebê, sem se culpar por dificuldades que têm causa física identificável, é parte importante desse processo. A amamentação com dor não é normal nem algo que deva ser simplesmente tolerado — buscar avaliação adequada é um cuidado tanto com o bebê quanto com a própria saúde física e emocional da mãe.
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