Nos primeiros dias de vida, enquanto você ainda se acostuma com o choro, a mamada e as noites picadas, a equipe da maternidade faz uma série de exames rápidos no seu bebê. Alguns são tão simples que passam quase despercebidos: uma luzinha no olho, um sensor no pezinho, um fone minúsculo no ouvido. Mesmo assim, cada um deles procura uma condição que, descoberta cedo, muda muito o futuro da criança.
Neste artigo você vai entender para que servem o teste da orelhinha, o do olhinho, o do coraçãozinho e o da linguinha, quando fazer cada um, o que significa o bebê "falhar" e quais sinais observar em casa. Se quiser a visão completa dos exames do começo da vida, leia também sobre o teste do pezinho, que complementa esta triagem.
Por que existe a triagem neonatal além do pezinho?
Triagem não é diagnóstico. Ela separa os bebês que não precisam de nada além do acompanhamento de rotina daqueles que merecem uma investigação mais detalhada. O objetivo é encontrar cedo problemas de audição, de visão, do coração e da língua, justamente na fase em que o cérebro está aprendendo mais rápido.
Cada teste é indolor, dura poucos minutos e pode ser feito com o bebê dormindo ou tranquilo no colo. Na maioria dos casos, o resultado é normal e a vida segue. Quando não é, o aviso chega cedo, e isso é uma vantagem enorme para o desenvolvimento do bebê no primeiro ano.
Teste da orelhinha: como é feito e até quando fazer?
O teste da orelhinha, ou triagem auditiva neonatal, usa as emissões otoacústicas. Uma sonda pequena e macia é colocada na entrada do ouvido, emite sons suaves e registra a resposta da cóclea, a parte interna da orelha. Não dói, não usa agulha e costuma ser feito com o bebê dormindo. A lei federal 12.303/2010 garante o exame gratuito nos hospitais e maternidades, e o SUS oferece o teste.
O ideal é realizar o exame ainda na maternidade ou, no máximo, até o primeiro mês de vida. Se o bebê nasceu em casa ou o teste não foi feito antes da alta, procure a unidade de saúde ou o pediatra o quanto antes para pedir o encaminhamento. Quanto mais cedo uma perda auditiva é identificada, mais cedo começam o acompanhamento e a estimulação, o que faz diferença na fala e na linguagem.
Teste do olhinho: o que o reflexo vermelho mostra?
O teste do olhinho, ou teste do reflexo vermelho, é feito com um oftalmoscópio, aparelho que joga uma luz nos olhos do bebê em um ambiente escurecido. Em um olho saudável, a luz volta com um brilho avermelhado, parecido com o "olho vermelho" das fotos com flash. Esse reflexo indica que o caminho da luz até o fundo do olho está livre.
Quando o reflexo é branco, ausente ou diferente entre os dois olhos, pode haver catarata congênita, alterações da retina ou outras condições que precisam de um oftalmologista. O teste deve ser feito antes da alta da maternidade e repetido nas consultas de rotina, como mostra o texto sobre as consultas de puericultura. Para outras dúvidas dos olhinhos, veja também o artigo sobre o estrabismo infantil.
Teste do coraçãozinho e teste da linguinha: o que avaliam?
O teste do coraçãozinho mede a oxigenação do sangue por oximetria de pulso, um sensor indolor colocado na mão e no pé do bebê. Ele é feito entre 24 e 48 horas de vida e ajuda a identificar algumas cardiopatias congênitas graves que, no começo, quase não dão sintomas. Saturação baixa ou muito diferente entre mão e pé pede avaliação complementar, geralmente com ecocardiograma.
O teste da linguinha examina o frênulo, a pequena prega que prende a língua ao assoalho da boca. Um frênulo curto pode atrapalhar a pega e a mamada. A lei 13.002/2014 tornou o exame obrigatório nas maternidades. Para entender como ele se relaciona com a mamada, leia o guia sobre o teste da linguinha, o frênulo curto e a amamentação.
Teste | Quando fazer | O que procura | Como é |
|---|---|---|---|
Orelhinha | Na maternidade ou até 1 mês | Perda auditiva | Sonda macia no ouvido, bebê dormindo |
Olhinho | Antes da alta e nas consultas | Catarata, alterações da retina | Luz do oftalmoscópio, sala escura |
Coraçãozinho | 24 a 48 horas de vida | Cardiopatias graves | Sensor na mão e no pé |
Linguinha | Primeiros dias de vida | Frênulo curto | Observação da boca e da língua |
Pezinho | 3º ao 5º dia de vida | Doenças metabólicas e genéticas | Gotas de sangue do calcanhar |
Se algum desses exames não aparece no relatório de alta do seu bebê, pergunte. É seu direito saber o que foi feito e o que ficou pendente.
O bebê "falhou" no teste: o que isso quer dizer?
Falhar na triagem não é o mesmo que ter o problema. Em muitos casos, o resultado alterado vem de situações passageiras: líquido ou vérnix no ouvido nos primeiros dias, bebê agitado, ruído na sala ou sensor mal posicionado. Por isso o protocolo é repetir o teste, em geral em até 15 a 30 dias, antes de qualquer conclusão.
Repetir o exame no prazo indicado, sem deixar para depois.
Se continuar alterado, seguir para o exame de confirmação com o especialista: audiologia no caso da audição, oftalmologia no caso dos olhos, cardiologia pediátrica no caso do coração.
Guardar o relatório do teste e levar à consulta com o pediatra.
Lembrar que bebês nascidos antes da hora têm mais chance de resultado alterado; veja mais sobre a prematuridade.
Em todos os casos, a ansiedade é compreensível. Respire, converse com a equipe e peça que expliquem os próximos passos por escrito. A maioria dos bebês que repete o exame passa.
Quais bebês têm mais risco e precisam de atenção redobrada?
Alguns fatores aumentam a chance de alterações de audição ou de visão e pedem acompanhamento mesmo quando a triagem é normal.
Histórico de surdez ou de problemas de visão na família.
Prematuridade, baixo peso ao nascer ou internação em UTI neonatal.
Infecções na gestação, como citomegalovírus, toxoplasmose, rubéola ou sífilis.
Icterícia intensa que precisou de tratamento, como explica o texto sobre a icterícia do recém-nascido.
Uso de medicamentos que podem afetar a audição, sempre decididos pela equipe médica.
Se o seu bebê se encaixa em algum desses grupos, converse com o pediatra sobre um calendário de reavaliações. Um resultado normal na maternidade não dispensa o olhar atento nos meses seguintes.
Semáforo da audição e da visão do bebê: o que é esperado, o que observar e quando procurar ajuda
Sinal tranquilizador: o bebê se assusta ou se acalma com sons e com a sua voz, acompanha seu rosto de perto e, aos poucos, vira a cabeça para o lado de onde vem o barulho.
Sinal de atenção: o bebê não reage a barulhos fortes, não se acalma com a sua voz, não segue um objeto ou o seu rosto depois de alguns meses, ou parece desviar os olhos com frequência; agende uma consulta com o pediatra nos próximos dias.
Sinal de alerta: há brilho branco ou esbranquiçado na pupila nas fotos, olhos muito desalinhados que não melhoram, nenhuma resposta a sons ou cansaço, lábios arroxeados e dificuldade para respirar ao mamar. Procure atendimento médico imediatamente.
Como observar em casa a audição e a visão do bebê?
Os testes da maternidade são o primeiro passo, não o último. Em casa, você é a pessoa que mais convive com o bebê e quem percebe as pequenas mudanças. Converse, cante e olhe nos olhos dele todos os dias; além de fazer bem ao vínculo, isso mostra como ele responde. O texto sobre falar com o bebê explica por que essa conversa importa tanto.
Nas primeiras semanas, observe se ele pisca, se assusta ou para de mamar com um som alto e repentino.
Por volta dos 2 a 3 meses, veja se ele acompanha seu rosto ou um brinquedo colorido que se move devagar.
Aos poucos, note se ele vira a cabeça em direção à voz e se balbucia de volta.
Anote tudo o que chamar atenção e leve à consulta; as brincadeiras de estimulação precoce também ajudam a perceber o ritmo dele.
Olhos remelentos ou lacrimejando muito costumam ter outra explicação, mais comum e simples; veja o texto sobre o olho remelando no bebê. Já o brilho branco na pupila, a leucocoria, nunca deve ser tratado como detalhe: vale avaliação rápida.
Como organizar os exames e as consultas depois da alta?
Antes de sair da maternidade, confira no resumo de alta quais testes foram feitos e quais ficaram pendentes. Guarde esse papel junto com a caderneta de vacinação, onde também fica o calendário de vacinas do bebê. Na primeira consulta com o pediatra, leve o relatório e pergunte o que falta.
Já na gestação vale deixar uma pasta pronta. Na lista da bolsa de maternidade, inclua um espaço para documentos e para a caderneta, assim nada se perde no vai e vem dos primeiros dias.
Checklist da triagem neonatal do meu bebê
Confirmar no relatório de alta se os quatro testes foram feitos
Agendar o teste da orelhinha até o primeiro mês, se ficou pendente
Pedir ao pediatra que repita o teste do olhinho nas consultas
Anotar a data e o resultado de cada exame na caderneta
Agendar o reteste dentro do prazo, se o resultado veio alterado
Ficar atenta aos sinais do semáforo acima
Os testes da maternidade são um cuidado simples que protege o futuro do seu filho, e a maior parte dos bebês passa em todos eles. Se vier algum resultado alterado, lembre-se de que a descoberta cedo é uma bênção: ela abre caminho para ajudar na hora certa. Confie na equipe, mantenha as consultas em dia e siga observando o seu bebê com carinho.
Continue lendo: Teste do pezinho, Teste da linguinha, Puericultura, Marcos do desenvolvimento no primeiro ano, Prematuridade e Conjuntivite no bebê e na criança.
